PROGRAMAS REGIONAIS

PAISAGEM INFRAESTRUTURAL DO BAIXO TEJO

uma exploração das paisagens agrícolas, industriais e logísticas das várzeas do Tejo, Sorraia, Maior, Almonda, Muge, Alpiarça, e de outros cursos.

fotografia 1 © 2014 S.E.I.P.

A 'Paisagem Infraestrutural do Baixo Tejo' é concebida e desenvolvida pela Sociedade Exploratória para a Interpretação da Paisagem para investigar os sistemas que estruturam o território e quais os sintomas que servem de suporte para a produção da paisagem contemporânea do Baixo Tejo.

Os primeiros vestígios humanos, no território que é hoje administrado por Portugal, foram encontrados na ribeira da Atalaia, em Vila Nova da Barquinha (fotografia 2), a quatro quilómetros da foz com o rio Tejo. A escavação do sítio arqueológico revelou a presença humana continuada desde o homem-de-neandertal (300 mil anos) ao homem-moderno (24 mil anos) depositada nos terraços fluviais que constróem a lezíria. Nestes milhares de anos de ocupação, o homem produziu uma paisagem aluvionar para dar suporte às várias comunidades que a habitaram até hoje.

fotografia 2 © 2014 S.E.I.P.

A paisagem contemporânea do baixo Tejo é marcada pelo recurso hídrico, a circunstância geomorfológica e da tensão emanada da área metropolitana. A interacção destes três factores geram uma paisagem dinâmica, intensa e minuciosamente antropormorfizada, cuja capacidade de se reinventar acelerou na segunda metade do século XX com a entrada em funcionamento de aproveitamentos hidroagrícolas, o encurtamento das distâncias (a nível local e global) e o desenvolvimento tecnológico. Apesar da emancipação tecnológica e da proximidade à área metropolitana, a lezíria mantém-se persistentemente à sombra das imagens fabricadas durante o Estado Novo.

Sistema Hidrológico enquanto sustentáculo das actividades humanas As comunidades que colonizaram as margens do rio adaptaram-no e adaptaram-se para integrar os seus humores mas também para aproveitar os seus recursos, alterando, em consequência, o próprio regime hidrológico. Na lezíria, as principais estruturas de controlo e de transporte foram levantadas no século XVIII. Muitas dessas estruturas, que preservam a gestão do equilíbrio entre o rio e o território, assumem sobre si outras valências. O potencial turístico proporcionou o aproveitamento dos diques para a criação de redes de percursos pedestres e cicláveis (fotografia 3) e a adaptação de portos de pesca em narinas.

fotografia 3 © 2014 S.E.I.P.

Os principais pontos de captação, adução, elevação, tratamento e acumulação de água para abastecimento da área metropolitana estão localizadas na lezíria ribatejana. O abastecimento está dividido em três subsistemas: Castelo de Bode (1987), Tejo (1940) e Alviela (1880). O Adutor de Castelo de Bode (fotografia 4) tem a capacidade de transporte de 625.000m3 diários de água captada superficialmente da albufeira e fornece quase 75% da água consumida. O adutor contacta com o Subsistema do Alviela em Alcanhões e com o Subsistema do Tejo na Várzea das Chaminés permitindo o transvase de um subsistema para outro, quando necessário.

fotografia 4 © 2014 S.E.I.P.

O regadio alterou o paradigma económico, social e do uso do solo da lezíria na segunda metade do século XX. O Aproveitamento Hidroagrícola do Vale do Sorraia, em funcionamento desde 1958, rega, em média, quase 13mil hectares, dos 16mil cobertos pelo aproveitamento. Em 2013, a cultura do arroz aproveitou 61,5 milhões de m3, cerca de metade do volume do água distribuído pelo aproveitamento. A água provém de 5 barragens (Magos, Montargil, Maranhão, Gameiro e Furadouro) e é transportada por 9 estações elevatórias, 113km de canais, 98km de distribuidores e 172km de valas de irrigação (fotografia 5).

fotografia 5 © 2014 S.E.I.P.

Exploração dos Recursos, ou a reorganização da crosta terrestre Uma vez ultrapassado o Maciço Antigo, a várzea abre e aplana, a velocidade da água reduz, o Tejo perde força e descarrega toda a carga erosiva recolhida a montante. Mais perto do leito depositam-se os inertes mais pesados; os leves são arrastados para mais longe (o cadastro longilíneo, perpendicular ao Tejo, promove a equidade de características entre talhões agrícolas). As deposições fluviais e marítimas são o sustentáculo para a produção agrícola e extracção de inertes.

A produção agrícola, onde o tomate, arroz, milho e prados têm um lugar de destaque, é o sinal mais visível da lezíria. Hoje a agricultura, que ocupa cada vez menos população activa e está cada vez mais modernizada, representa cerca de 2,5% do PIB e usa quase 40% do território nacional. Na lezíria, a ocupação do solo para a agricultura aproxima-se da totalidade. Em torno da produção de tomate, arroz e vinha surgem as indústrias, silos, casas agrícolas, cooperativas, adegas e aeródromos. A proliferação de aeródromos privados ou concessionados, cerca de 20 na região sem contabilizar as pistas militares de Alcochete, Alverca e Ota, surgiram para dar apoio ao sector (fotografia 6).

fotografia 6 © 2014 S.E.I.P.

Em 2005 foram extraídos 2,1 milhões de toneladas de areias do leito do Tejo para uso na construção civil. A montante de Valada, as extracções são realizadas por 20 dragas de sucção. A jusante, as extracções são feitas através de 5 batelões que vão descarregar nos cais de Vila Franca de Xira, Alverca e Xabregas.

Em Rio Maior concentram-se várias empresas de extração de areias siliciosas para a indústria vidreira, cerâmica e electrónica. As marcas na paisagem, abertas para a exploração de inertes depositados por uma transgressão marinha no fim do período Terciário (entre 2 a 5 MA), produzem alguns dos sinais mais marcantes da região (fotografia 7).

fotografia 7 © 2014 S.E.I.P.

Rede Infraestrutural, acerca da captação, transporte e armazenagem de recursos A força gravítica dos centros urbanos que rodeiam o estuário do Tejo exercem simultaneamente fenómenos orbitais e irradiais. Os terraços aluvionares fornecem o palco para a instalação dessas matrizes.

A força centrípeta é evidente na rede de produção e transporte de energia (Centrais Termoeléctricas do Carregado e do Ribatejo, fotografia 1), na rede de transportes (rede de autoestradas e de ferrovias) e de telecomunicação (Monte Gordo, fotografia 8). Mas é nos espaços de logística que a pressão demográfica do estuário se faz sentir com maior particularidade. Extensas áreas como o Parque Industrial da Rainha, na Azambuja, são fundamentais para responder às pressões dos consumidores das pequenas e grandes superfícies comerciais. Importantes entrepostos e empresas de retalho têm na Azambuja as suas principais plataformas distribuidoras da zona de Lisboa e centro.

fotografia 8 © 2014 S.E.I.P.

A Plataforma Logística Lisboa Norte, no Carregado (fotografia 9), é uma das mais extraordinárias intervenções no território nacional em resposta às pressões logísticas. Em 2008 foi reconhecido o interesse público nacional justificando a desafectação da área de inúmeros Instrumentos de Gestão Territorial. Em 2011, o travão do financiamento privado para a construção da plataforma de 100ha deixou-a apenas com os acessos (de financiamento público) e infraestruturas construídos. Entretanto, os interstícios da malha infraestrutural foram colonizados pela vegetação e avifauna local.

fotografia 9 © 2014 S.E.I.P.

O rio é estrutural na germinação das nossas histórias com o Baixo Tejo e, ao fazê-lo, aglutina nas suas margens o nosso entendimento enquanto comunidade sobre o lugar. De um lado e do outro do leito nós captamos e conduzimos a água para saciar as populações e regar as nossas produções; ao mesmo tempo, erguemos muralhas para nos defender do aumento sazonal de caudal; transformamos a superfície aluvionar para a produção de alimento e implantamos um conjunto de estruturas que os transforma; e definimos uma rede para nos deslocar e transportar uma panóplia de recursos, primeiro via fluvial, depois terrestre e agora aérea. E, apesar da evidente cumplicidade com a área metropolitana, a lezíria mantém-se obscura da maioria da população. Alguns dos lugares mantém-se desde séculos (intactos ou reajustados), uns sucumbiram às transformações sócio-económicas de que estavam dependentes, outros surgem em resposta às oportunidades económicas, políticas e sociais. O Tejo evidencia-se enquanto recurso e infraestrutura, catalizador de economias e sujeito à ocupação e adaptação das suas margens para redefinir uma habitabilidade que é imposta pelas circunstâncias contemporâneas. As histórias das margens do Tejo revelam a reciprocidade entre a paisagem e os homens e, no processo, denunciam o carácter ontológico imbuído na paisagem construída nas várzeas do Tejo, Sorraia, rio Maior, Almonda, Muge, Alpiarça.

A 'Paisagem Infraestrutural do Baixo Tejo' é explorada ao longo de três vectores: Sistema Hidrológico, Rede Infraestrutural e Exploração de Recursos.

A exploração da Rede Infraestrutural evidencia um território com uma complexidade gerada, por um lado, pela proximidade da área metropolitana, por outro, pelo papel geoestratégico no território nacional, também disponibilizado pelas condições geomorfológicas desenvolvidas durante o Cenozóico. A força gravítica da área metropolitana exerce simultaneamente fenómenos orbitais e radiais, e os sedimentos dos terraços aluvionares fornecem o palco para a instalação das estruturas.

A investigação em torno do sistema hidrológico incidiu na sua componente infraestrutural, que no vale do Tejo assume uma expressão muito significativa e com recorrências ao longo dos séculos. A agricultura, por exemplo, atingiu hoje níveis de industrialização e mecanização, e em particular no vale do Tejo, de referências e limites cada vez mais minuciosos, e onde têm sido introduzidas ou modificadas cadeias com complexidades e extensões diversas. A agricultura é hoje uma actividade que ocupa cada vez menos população activa, está cada vez mais modernizada, garante cerca de 2,5% do PIB e usa quase 40% do território nacional, sendo que na unidade de paisagem da lezíria a percentagem aproxima-se da totalidade do território.

O Sistema Hidrológico é destacado pela importância singular que tem para toda a área metropolitana mas também pela sua historicidade e entrosamento no quotidiano das comunidades da lezíria. A investigação identifica as estruturas de controlo do regime hidrológico e as de transporte de mercadorias e de pessoas que foram abertas no século XIX. Muitas destas estruturas mantêm hoje um papel significativo na gestão do equilíbrio entre o rio e o território de suporte das comunidades, aproveitando o rio e os seus afluentes e aquíferos, os principais pontos de captação e, consequentemente, de adução, elevação, tratamento e acumulação de água para abastecimento da área metropolitana estão localizadas na lezíria ribatejana.

A Rede Infraestrutural e a proximidade aos principais interfaces de transporte, como o porto de Lisboa e de Sines (a indústria de concentrado de tomate exporta 95% da sua produção, por exemplo), e o Sistema Hidrológico (desde o Cenozóico) e as consequências que este teve, e tem, na produção do meio de suporte explicam, em certa medida, os sintomas que a exploração dos Recursos produz no território do Baixo Tejo. A actividade agrícola, onde o tomate, o arroz, o milho e os prados têm um lugar de destaque, é, provavelmente, o sinal mais visível e evidente da lezíria. As organizações de produtores são aqui os elementos que representam, iconicamente, esta actividade. Em torno da agricultura surge a agro-indústria ligada à cultura do tomate, do arroz e da vinha, os silos e as casas agrícolas, características da região. A exploração dos recursos minerais aproveitam as areias depositadas pelos aluviões desde há 65 milhões de anos até aos dias de hoje. A forma como se explora cada um destes terraços produz alguns dos sinais criados pelo homem mais marcantes da região.

Apresentações:

2015.09.25 - Associação Portuguesa de Arquitectos Paisagistas, Lisboa (Jornadas Europeias do Património 2015)

2015.02.13-2015.02.27 - Museu Geológico, Lisboa

Edições:

2015.09.26 - Lançamento da Série I e Série II de postais da P.I.B.T., Livraria Ler Devagar, Lisboa (Jornadas Europeias do Património 2015)